Saltar a navegação

todos os dias era esse lugar e a sua alma desfeita. cínico, mostrava sorrisos  arrancados aos pontapés de um canto escuro que existia em si, numa gaveta que nunca abrira. aquela terra tinha essa habilidade, de pôr a descoberto os seus piores defeitos. todo o plástico que envolvia aquela casca, fazia-o tropeçar. e depois de tombar, caía outra vez. não tinha vergonha e chamava por eles. quem os outros consideravam inteligentes eram mentes pequenas, presas à espiral imperfeita da enganadora ideia de que o verdadeiro conhecimento se assenta em intermináveis memorizações sobre o faróis dos carros, as capitais, o rio mais sujo do mundo, etc.

tudo era pequeno. as pessoas, os edifícios, as roupas, os cabelos, os cheiros, os gestos. tudo era ridiculamente pequeno, tudo era tão pequeno, menos o espaço que existia entre si e os outros que lá moravam.

Se o meu irmão não diz, digo eu que sei. Esse indíviduo tentou agredi-lo com um paralelo.
Paralelo? (pausa) É verdade, um paralelepípedo. Alguém lhe lavou a cabeça.

Júlia Pinheiro: Que idade tem a sua mãe?

A minha mãe tem 83 anos. Não sabe ler nem escrever.

“Da falta que tu me fazes”

“Disse-te adeus não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada

Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um p’lo outro a ninguém

Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes”

menina 1

(enquanto dobra a calça de ganga que assenta bem com a bota)

(…) bou morrer como toda a gente.

menina 2

(enquanto dobra o top muito lindo)

pos bais (…) e bamos todos deitados.

menina 1

se bou deitada ou de pé (riso) isso é que já num sei.

Nada disto tem sentido. O que fazer quando o que temos para dizer é nada?
Uma questão de disciplina, será? Organizar o que se tem por dentro, alguma coisa há-de surgir. Como ultrapassar o muro da inércia? Estendo-me sobre este teclado cinzento que me consome devagar, descubro que estar sozinho é igual para todos. No fim é isto: sozinhos por dentro, quanto muito connosco. Às vezes uma multidão, quase sempre sós; se formos a ver as coisas como elas são.
A memória diz há quanto tempo estamos aqui; tento adormecer o tempo silenciando a recordação que se desdobra aleatória no espaço que sou. Não consigo. Quero dominar um pouco mais os meus pensamentos, mas a cabeça tem um mecanismo próprio que sobrevive sem as minhas indicações. Por vezes, é o caso do dia de hoje, o que tenho dentro da cabeça (serei eu?) é estranho estrangeiro, como se dentro, uma energia invisível possuísse instintos assassinos e a sua vontade fosse mesmo o meu desaparecimento, pois diz-me agora:
mostro-te como sou a tua cabeça e tenho poder.
não quero medir forças contigo cabeça.
Ela diz-me que sim,
que quero, mesmo que não quisesse era ela quem decidia.
Estou aqui podes falar.

não te vou dizer nada daquilo que queres ouvir.

O coração é do tamanho de uma ervilha.  Transborda lava e cantos.

Com uma postura vertical bebe o café em goles nervosos, curtos.

Sou quem decido o que os outros pensam sobre mim.

A sua cara é feita de plástico e todos os seus movimentos estão presos a uma cabeça vazia, um coração de borracha. Quando se ri, os músculos das bochechas transformam-se em pedra e os olhos; na verdade não são olhos, são muros; dizem que é feita de mentira.

Afastemo-nos dela mais um pouco. Somos capazes de a conseguir ver ao espelho. Cirurgicamente avalia todo o inventário que foi capaz de reunir em torno de um corpo autêntico, palpável – ela não.
Os outros não gostam de mim. De qualquer das formas, estamos todos sozinhos.
Está no talho. Tapa o nariz, franze todo o crânio dos olhos para cima. A faca bate na carne duas vezes até dentro do saco que a mãe faz baloiçar pateticamente ao longo do passeio estreito que as leva até casa.
É bem capaz de chover. Ninguém me vence.

O puré de batata que comeu ao almoço deixou-o com uma sensação de fartura que, em grande medida, aumentava o seu estado ansioso. Foi quando se aproximou da cadeira onde a sua mãe estava sentada de costas para si e de frente para o resto. Iniciou-se um diálogo como este:
- Puseste alho no puré?
- Não há alho cá em casa. O teu pai fazia-lhe mal o alho.
- Será que vai haver um dia em que não fale do pai?
Seguiram-se breves instantes de silêncio, interrompidos quando a mãe:
- Tens alguma coisa para lavar?
- Não.
Abandonou a sala e entrou na cozinha, abriu o frigorífico. Dentro de um tupperware de tampa verde estava o puré que tinha restado do almoço. Pegou na caixa, despiu-a da tampa verde. Despejou o puré pela banca, rodou a torneira, rodou ainda mais a torneira para o lado esquerdo; ficou a ver – a água contra o puré de batata.
- Estás na cozinha?
- Não.
- Está água a correr na cozinha.
- É lá fora.
Esperou até ao momento em que o puré já não estava ali, tinha ido pelo ralo; rodou a torneira para a direita até a fechar totalmente. Sentou-se na cadeira, uma pequena mesa que existia na cozinha perto da janela, chegou com o olhar à varanda do segundo andar do prédio em frente – dois pares de calças, uma camisa de quadrados, uma tolha de mesa com a repetição infantil de um galo de Barcelos. Do seu lado esquerdo a imagem improvável da mãe, pelo seu próprio pé, arrastando-se lenta até ao lugar onde estava sentado, lugar estranho, incómodo; todos os lugares por onde passava eram assim gélidos, queimados, imperfeitos. Como seriam antes dele, como ficariam depois de partir? – o que pensava naquele preciso momento antes da sua mãe se sentar era em nada. Não disse uma palavra. Foi a mãe que falou:
- A torneira está fechada.
- Eu disse-lhe que era lá de fora.
- Se não quiseres comer o resto do puré, à noite faço-te uns ovos.
- Está bem.
- Em que é que estás a pensar?
- Em nada.
Havia uma mola em cima da mesa da cozinha. Entretinha-se a abrir e fechá-la continuadamente.
- Nada não existe filho.
Deitou-se por volta das dez. Com algum conforto, sim; aos ovos a mãe acrescentara um pouco de bacon e o excesso de sal, típico da sua mão trémula, não era, necessariamente, um defeito, pelo menos naquele dia.

A sua cara existia em duas dimensões. Não deixava de ser uma bola grande e gorda, mas, ao contrário do que seria de esperar, a sua cara não era disforme. Repito, a sua cara existia apenas em duas dimensões. A sua cara era plana e redonda ao mesmo tempo.

Tinha um problema de ambição. Entre muito outros. Em camadas desalinhadas, a roupa acumulava-se na cadeira aos pés da cama até ao chão.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.