O puré de batata que comeu ao almoço deixou-o com uma sensação de fartura que, em grande medida, aumentava o seu estado ansioso. Foi quando se aproximou da cadeira onde a sua mãe estava sentada de costas para si e de frente para o resto. Iniciou-se um diálogo como este:
- Puseste alho no puré?
- Não há alho cá em casa. O teu pai fazia-lhe mal o alho.
- Será que vai haver um dia em que não fale do pai?
Seguiram-se breves instantes de silêncio, interrompidos quando a mãe:
- Tens alguma coisa para lavar?
- Não.
Abandonou a sala e entrou na cozinha, abriu o frigorífico. Dentro de um tupperware de tampa verde estava o puré que tinha restado do almoço. Pegou na caixa, despiu-a da tampa verde. Despejou o puré pela banca, rodou a torneira, rodou ainda mais a torneira para o lado esquerdo; ficou a ver – a água contra o puré de batata.
- Estás na cozinha?
- Não.
- Está água a correr na cozinha.
- É lá fora.
Esperou até ao momento em que o puré já não estava ali, tinha ido pelo ralo; rodou a torneira para a direita até a fechar totalmente. Sentou-se na cadeira, uma pequena mesa que existia na cozinha perto da janela, chegou com o olhar à varanda do segundo andar do prédio em frente – dois pares de calças, uma camisa de quadrados, uma tolha de mesa com a repetição infantil de um galo de Barcelos. Do seu lado esquerdo a imagem improvável da mãe, pelo seu próprio pé, arrastando-se lenta até ao lugar onde estava sentado, lugar estranho, incómodo; todos os lugares por onde passava eram assim gélidos, queimados, imperfeitos. Como seriam antes dele, como ficariam depois de partir? – o que pensava naquele preciso momento antes da sua mãe se sentar era em nada. Não disse uma palavra. Foi a mãe que falou:
- A torneira está fechada.
- Eu disse-lhe que era lá de fora.
- Se não quiseres comer o resto do puré, à noite faço-te uns ovos.
- Está bem.
- Em que é que estás a pensar?
- Em nada.
Havia uma mola em cima da mesa da cozinha. Entretinha-se a abrir e fechá-la continuadamente.
- Nada não existe filho.
Deitou-se por volta das dez. Com algum conforto, sim; aos ovos a mãe acrescentara um pouco de bacon e o excesso de sal, típico da sua mão trémula, não era, necessariamente, um defeito, pelo menos naquele dia.