A menina entra sempre em pés de lã. Noites mal dormidas, as noites são sempre curtas e o frio que faz fora da cama é igual todas as manhãs. Por trás da pilha de livros que está quieta desde sempre na sua secretária, a menina esconde a cara pálida e quieta com a ajuda dum monitor de computador do qual só conheço as costas. O que consigo ver é o topo da sua cabeça, neste caso, cabelo pintado de preto. Não sei se a menina pensa em alguma coisa, se simplesmente respira. Por vezes, o candeeiro ao seu lado acende-se, dias mais cinzentos. Quando se atreve até à porta, a menina tem rímel nos olhos e as suas bochechas já não são mais brancas, são cor-de-rosa. Os lábios estão brilhantes e parece que é quase uma menina contente, mas ainda não é, não, o que conquistou ainda não lhe chega, se algum dia chegar, esse dia. O que vai acontecer amanhã é isto: a menina vai entrar tão branca como hoje e sentar-se no sítio que está reservado para ela trabalhar o dia inteiro, já lá vão uns anos. Vai entrar em pés de lã, com alguma maquilhagem na carteira que vai usar quando a manhã estiver mais tarde.
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