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A menina entra sempre em pés de lã. Noites mal dormidas, as noites são sempre curtas e o frio que faz fora da cama é igual todas as manhãs. Por trás da pilha de livros que está quieta desde sempre na sua secretária, a menina esconde a cara pálida e quieta com a ajuda dum monitor de computador do qual só conheço as costas. O que consigo ver é o topo da sua cabeça, neste caso, cabelo pintado de preto. Não sei se a menina pensa em alguma coisa, se simplesmente respira. Por vezes, o candeeiro ao seu lado acende-se, dias mais cinzentos. Quando se atreve até à porta, a menina tem rímel nos olhos e as suas bochechas já não são mais brancas, são cor-de-rosa. Os lábios estão brilhantes e parece que é quase uma menina contente, mas ainda não é, não, o que conquistou ainda não lhe chega, se algum dia chegar, esse dia. O que vai acontecer amanhã é isto: a menina vai entrar tão branca como hoje e sentar-se no sítio que está reservado para ela trabalhar o dia inteiro, já lá vão uns anos. Vai entrar em pés de lã, com alguma maquilhagem na carteira que vai usar quando a manhã estiver mais tarde.

Pensou que o mundo não lhe interessava, o mundo como ele é. Para onde quer que fosse era importante que permanecesse em si a mesma sensação de liberdade que se estendia nas mãos enquanto escrevia que,
Tinha passado a tarde consigo mesmo, uma tarde bem passada. Não conseguindo explicar o que tinha acontecido naquela sala, encontrava explicação na música e, talvez, no que conseguiu encontrar em algumas frases que foram escritas no seu pequeno caderno preto. Há muitas formas de estarmos adormecidos, há sonos que se prolongam como pequenas mortes intermitentes que nos impedem de avançar, pensou. Foi quando qualquer coisa caiu num espaço que não é cabeça, um espaço que está perto de um nervo carnudo. Decidiu que a única possibilidade seria criar um lema assim:
não há nada menos sério do que a vida.
É claro que isso era o mesmo que constituir uma grande legião de inimigos, defensores que reclamavam,
não há nada mais sério do que a vida.

A casa mudara. Já não é a minha casa, pensou, a minha casa são lugares que visito todos os dias na minha cabeça. Sentou-se perto do pequeno portão e tirou do bolso alguns amendoins. Arrisco a dizer que eram amendoins pelo som que estalava dos seus dedos. Via-se mal, por ali o nevoeiro costumava demorar-se depois das primeiras horas da manhã. Pôs-se a comer. Quando se levantou já era noite. Apanhou um táxi que o deixou numa pensão, não muito longe dali.

No dia seguinte vestiu uns calções de banho que estavam esquecidos no sótão. Um bom exercício para os braços, pensou, e quando se preparava para entrar no mar começou a sentir picadas nas pernas, talvez picadas, digo picadas porque começou a coçar com força a perna direita.  Conseguiu arrancar o que é vulgar entender-se por pele. Para ele, só uma comichão maior do que as outras. Quando isto acabou, desistiu da natação que estava agendada para aquele dia.

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